quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O meu olhar é nítido como um girassol...

     
    O meu olhar é nítido como um girassol.
    Tenho o costume de andar pelas estradas
    Olhando para a direita e para a esquerda,
    E de vez em quando olhando para trás...
    E o que vejo a cada momento
    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
    Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascido a cada momento
    Para a eterna novidade do Mundo...
    Creio no mundo como num malmequer,
    Porque o vejo. Mas não penso nele
    Porque pensar é não compreender...

    O Mundo não se fez para pensarmos nele
    (Pensar é estar doente dos olhos)
    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

    Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
    Mas porque a amo, e amo-a por isso
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

    Amar é a eterna inocência,
    E a única inocência não pensar...

    Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Não sei quantas almas tenho...





Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

              Fernando Pessoa

sábado, 3 de novembro de 2012

Poesia Ortónima

Finalmente, mas ainda a tempo de fazerem umas consultas extra, cá vos deixo a brochura com outras poesias de Fernando Pessoa Ortónimo, para alargar as vossas experiências de leitura.

É bom lembrar que as obras de Fernando Pessoa se encontram em livro na BE. Façam-lhe uma visita.
clica na imagem para expandir

terça-feira, 30 de outubro de 2012

1 de novembro? Diz-te alguma coisa?

É o Dia de Todos os Santos.
Comemora-se em Portugal, com a ida ao cemitério rezar e colocar flores nas sepulturas dos familiares falecidos, porque no dia seguinte é o "Dia dos Fiéis Defuntos".

Na maioria das aldeias portuguesas, este dia é sinónimo de "bolos dos Santos", "castanhas e água pé“, por isso se chama o “Dia dos Bolinhos”.
 É tradição as crianças saírem à rua e juntarem-se em pequenos grupos para pedir o Pão por Deus de porta em porta, recitando versos. Esta atividade é principalmente realizada nos arredores de Lisboa, relembrando o que aconteceu no dia 1 de Novembro de 1755, aquando do terramoto, em que as pessoas tiveram que pedir "pão-por-deus" nas localidades que não tinham sido atingidas pela catástrofe.
Em algumas povoações da Beira, os padrinhos oferecem aos seus afilhados um bolo, o Santoro.

domingo, 21 de outubro de 2012

O menino de sua mãe




Letra, (adaptação do poema) de Fernando Pessoa
Música de Mafalda Veiga‎
Arranjo de António Ferro
disco "Pássaros do Sul" (1987)

O menino de sua mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado -
Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

domingo, 14 de outubro de 2012

Vaga, no azul amplo solta



Letra de Fernando Pessoa
Música de Patxi Andión
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Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

Lo que lloro es diferente

Está en el centro del alma
Mientras, en cielo silente
La nube se mece en calma

E isto lembra uma tristeza

E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Pero al fin, lo que es llanto

En esta triste amargura,
Vive en el cielo mas alto.
En la nostalgia mas pura.

No se lo que es, ni consiento / Não sei o que é nem consinto

Al alma saberlo bien. / À alma que o saiba bem.
Visto el dolor con que miento / Visto da dor com que minto
Dolor que en mi alma es ser. / Dor que a minha alma tem

domingo, 7 de outubro de 2012

Liberdade



Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

 Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O grande Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa,  um dos grandes poetas lusos, para muitos o maior dos líricos portugueses, e do mundo.

Este documentário, da série Grandes Portugueses, é imperdível para quem quer conhecer melhor o tamanho da(s) figura(s) de Pessoa.


domingo, 23 de setembro de 2012

Outono


Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.


Eugénio de Andrade

 Foto de Adriana Estrela in http://photonature09.blogspot.pt/